Adaptação e Pesquisa
Adaptação e Pesquisa

A adaptação

Adaptar nunca é fácil. As pessoas, muitas vezes, imaginam que adaptar é simples, porque você já tem a história pronta e, assim, seria só transpô-la para os quadrinhos. No entanto, o caso é que não se trata de um processo tão simples assim.
O mangá, por apresentar ações dinâmicas e sucessivas, prendendo o leitor aos eventos narrativos associados aos ilustrativos, aproxima-se muito mais à proposta do cinema. Contudo, ao adaptar uma obra, o autor leva em consideração as diferenças existentes entre a obra escolhida e as particularidades do modelo a ser desenvolvido. No mangá, em especial, dois elementos de grande força atuam quanto à adaptação: a quantidade de páginas e a adaptação da narrativa.
Adaptar Helena foi um processo cuidadoso que exigiu que tivéssemos de tomar algumas decisões delicadas. Em primeiro lugar tínhamos uma quantidade limite de páginas – o que nos deixou com a seguinte questão: poderíamos transpor a obra integralmente? Uma primeira leitura da obra nos mostrou que a resposta seria ”não”. O estilo narrativo de Machado em Helena possui uma característica: ele narra grandes passagens de tempo e situações chave em poucas linhas. Na prática isso significava que tínhamos de transformar uma única frase em sequências de algumas páginas – ou seja, imagens - para poder passar ao leitor o desenrolar da trama de forma mais consistente a fim de que ele sentisse, junto com as personagens, a passagem do tempo e a evolução de suas emoções.
Isso fez com que a versão de Helena em mangá tivesse cenas e diálogos extraídos das descrições de Machado passadas ao leitor, e outras cenas modificadas e condensadas, juntando alguns diálogos espalhados pela obra. Por que essa recolocação? Bem, primeiro: Machado narra muito as ações, descreve o psicológico das personagens, divide suas impressões com o leitor, etc... Poderíamos pegar tudo isso e jogar num monte de recordatórias, mas não era isso o que queríamos. Almejávamos fazer de Helena uma história em quadrinhos, não um livro disfarçado em quadrinhos. Segundo: existem diálogos no livro que podem ser considerados longos e com muitas frases supérfluas, cuja exclusão não afetaria o conteúdo. Se fôssemos colocar todas essas cenas, a obra extrapolaria seus limites de páginas. Esse conjunto de situações fez com que optássemos por essa série de alterações. Outra questão foi a linguagem: tínhamos de manter a estrutura de certas frases, mas simplificando sempre que possível alguns trechos e trocando algumas palavras antigas por termos mais modernos para a compreensão mais rápida do leitor. O resultado foi uma obra mais leve do ponto de vista dos diálogos e com cenas que substituíram as narrativas do livro sem perder de vista a trama.

A Pesquisa

Quem imagina que escrever obras nacionais é moleza, se esqueceu de todos esses detalhes, assim como também não pensa no trabalho de reconstrução de uma época. É como fazer um filme. Nós tínhamos de reconstruir visualmente todo um período, no caso 1850. Era necessário passar para o leitor a história com toda veracidade possível, já que a trama em si era puramente fictícia, mas os conceitos morais da época eram reais – sendo essa a grande questão abordada por Machado. Para o leitor vivenciar todo esse pensamento da época era importante fazê-lo sentir e ver aquele ambiente também.
Para tal, recorremos ao material visual encontrado na internet, assim como aos livros especializados. Material em vídeo – como as novelas, por exemplo, não foram muito úteis – descobrimos bem depressa que a pesquisa de época para as novelas, apesar de ser fiel em alguns aspectos, como cenários, deixa bastante a desejar nos figurinos - principalmente os femininos. Isso é bem explicável, afinal, numa novela os atores se deslocam muito nas cenas e roupas com grandes armações podem ser um pesadelo para a imaginação cheia de movimentos ágeis dos novelistas. Dessa forma geralmente as roupas sofrem saltos de algumas décadas, ou perdem suas famosas armações que lhe dão volumes imensos, para facilitar a movimentação na trama.
Da mesma forma que as roupas merecem especial atenção, assim também merecem os cenários e o gestuário.
Pesquisas foram feitas para localizar a arquitetura em fotos e pinturas no período do Brasil monárquico. Havia detalhes importantes encontrados nas mobílias – não é apenas o caso de se desenhar móveis antigos em estilo vitoriano. Por exemplo, as cadeiras tinham de ser largas ou não possuir braços (no caso das estreitas) para que as mulheres pudessem se sentar de modo confortável com seus enormes vestidos armados – cadeiras estreitas e com braços eram para homens! Esses e muitos outros detalhes se seguiam também pela etiqueta da época. Como andar, que posição tomar, quem fecha a porta, como se cumprimenta e quando. Tudo isso faz parte de um mundo de gestuários nos quais poucos resquícios permaneceram e que nós tivemos de reviver.
Não havia apenas etiqueta na vida, mas também na morte. Os funerais eram um mundo à parte e continham suas próprias regras. Havia uma série de normas a cumprir, muitas das quais existem ainda hoje. Um exemplo interessante é que Estácio, que nos quadrinhos não possui barba, na primeira cena em que aparece, ele a tem por fazer. Não, não é descuido! Era etiqueta de luto! Era costume o homem deixar de fazer a barba por vários dias depois que algum familiar morresse. Todos esses detalhes foram pesquisados.
Bem, livros e livros, sites e sites depois, chegamos à adaptação de Helena que, sabemos, não segue fielmente o modelo adotado por Machado - afinal é apenas uma visão dele - mas que seja agradável e interessante o suficiente para aguçar a curiosidade do leitor e estimulá-lo a conhecer, não apenas esta obra em especial, como outras importantes da literatura nacional.